quarta-feira, novembro 22, 2006
Teoria da Edição
Fiquei a pensar no assunto da segunda parte da aula. Depois de matutar qualquer coisinha no assunto, acho que não ficou definida a fronteira entre editor e crítico. Afinal, onde começa um e acaba o outro?
Que sentido faz eu, enquanto editor, emitir juízos de valor que ultrapassam em muito a minha esfera de acção. Só me parece lícito fazê-lo se me for solicitado. Senão vejamos: imaginemos que sou um arquitecto. Faço um projecto e dou-o a construir a um empreiteiro. A dada altura, o empreiteiro, ou o trolha, ou o servente, pouco importa, acha que fica melhor tirar um pilar e colocar uma parede de tijolo de vidro onde estava projectado uma parede enorme em vidro! Acho que nenhum arquitecto iria gostar desta liberdade, por muito jovem que fosse e por muita fama que o tal empreiteiro gozasse. Se tal acontecesse estaria o empreiteiro a castrar a liberdade criativa do autor ou a tornar a sua obra mais rica do ponto de vista estético?
Tal como acima descrevo, o autor é o criador, o editor é apenas e só o executante, como tal, não deve, grosso modo, interferir no trabalho criativo, pois uma coisa é eliminar lacunas, falhas, a outra é haver uma intromissão no conteúdo. Não me parece bem, nem digno de profissionalismo um procedimento destes.
Se for comprar um maço de cigarros não vou gostar de ouvir, da parte do vendedor, juízos de valor acerca dos malefícios do fumo. O problema é meu, a responsabilidade é minha. Da mesma forma, era muito asno se resolvesse culpabilizar a pessoa que me vendeu os cigarros se me fosse diagnosticada qualquer doença.
Quem achou piada ao facto de, durante anos, os frescos nus da Capela Sistina terem sido vestidos? Deve ter sido algum editor iluminado que tinha um refinado requinte estético para impor a sua vontade à vontade do autor.
Onde fica afinal o livre arbítrio criativo do autor? Se assim não for, podemos afirmar que os ilustres senhores do lápis azul eram excelentes editores. Afinal a censura não foi senão uma miragem, um devaneio de uns quantos autores. Estes deviam é estar gratos a esses senhores, tal como nós!!!
Comments:
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De facto, tenho de concordar contigo. Pelo que retive da aula passada, penso que o trabalho do editor seja ajudar a melhorar o texto do autor. Ele deve trabalhar em conjunto com o autor para "limar as arestas" do produto final, e não censurar aquilo que o autor escreveu (o conteúdo, por exemplo). É um trabalho de equipa onde deve haver honestidade e diálogo acima de tudo. Trata-se de tornar uma coisa boa numa coisa ainda melhor. Deve-se sempre estar aberto a sugestões. Só assim se pode progredir, pelo menos do meu ponto de vista.
O autor não é perfeito, mas o editor pode ajudar o autor a aproximar-se dessa perfeição. Eu acredito que é sempre bom ter uma segunda opinião. Às vezes as pessoas vêem coisas que eu não vejo... Ou então ajudam-me a ter outra perspectiva sobre as coisas.
Um abraço e até logo
Marta
O autor não é perfeito, mas o editor pode ajudar o autor a aproximar-se dessa perfeição. Eu acredito que é sempre bom ter uma segunda opinião. Às vezes as pessoas vêem coisas que eu não vejo... Ou então ajudam-me a ter outra perspectiva sobre as coisas.
Um abraço e até logo
Marta
um editor é um centro comercial. o autor é uma loja. claro que o dono do centro comercial não vai interferir no conteúdo da loja, mas vai estabelecer algumas regras, as quais a loja terá que cumprir.
vítor
vítor
Acho que confundiste o trabalho conjunto entre editor e autor com o livre arbítrio do editor. É um trabalho conjunto, nem sei se se pode falar em regra e sim em entre-ajuda. O problema é que esse papel não existe e nós não o vemos, assim, o conceito é muito difícil de entender, vai para além daquilo que conseguimos aceitar dentro do mundo editorial que nos é mostrado. Um editor não é um executor, isso de certeza que não é, o papel dele é muito mais metafísico do que isso. Simplesmente não tem sido explorado nem respeitado... E olha que eu sou a primeira a dizer que se deve a cima de tudo respeitar a liberdade criativa! Mas aí vem o diálogo e o trabalho a dois com o escritor... E claro que este terá sempre a última palavra!
Também discordo. Sobretudo porque justa ou não, a possibilidade de interferência (gosto mais do termo utilizado pela Rosa: trabalho em equipa) do editor no processo de conclusão da obra é normalmente uma mais valia para a obra. Normalmente, repito.
Não acredito em obras de arte sem público. A obra deve ter um elemento de abrangência, i.e., a capacidade de chegar a diferentes pessoas e sensibilidades.
Ora qualquer criador precisa como de pão para a boca de uma visão distanciada sobre aquilo que criou.
Deve ser o editor a preencher este gap entre o poeta e o mundo.
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Não acredito em obras de arte sem público. A obra deve ter um elemento de abrangência, i.e., a capacidade de chegar a diferentes pessoas e sensibilidades.
Ora qualquer criador precisa como de pão para a boca de uma visão distanciada sobre aquilo que criou.
Deve ser o editor a preencher este gap entre o poeta e o mundo.
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